2009-09-03

Identidade e futuro patrimonial da Covilhã

O dossier subordinado ao tema “Covilhã, a cidade-fábrica” integrado no último número da revista Monumentos proporciona-nos uma panorâmica diacrónica, qual mosaico de síntese dos temas mais significativos da herança social, política, económica e até artística da cidade. Ali se descrevem as dinâmicas que foram moldando a urbe, desde o passado castrejo à fixação da muralha medieval cristã, do arrabalde à judiaria,
do característico modelo industrial à universidade, dos planos de expansão e fomento ao recente programa Polis.

Este segundo número sob responsabilidade do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana não só respeita a qualidade impressa à revista pela extinta Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais como testemunha um certo aggiornamento nas ideologias do património, agora menos centradas no monumento isolado e mais voltadas para a reabilitação do todo construído e habitado. A par de alguma arquitectura analisa-se a forma urbis com base nos diversos planos de melhoramentos e de urbanização que regularam a expansão, como os de Antunes Navarro e de João António de Aguiar. Este último, responsável pela marca do regime no Pelourinho, foi ditado por um duplo fito, de mobilidade e higienista, prevendo espaços verdes, equipamentos públicos, amplas zonas residenciais e a salvaguarda da paisagem rural.
Almejando recuperar a dimensão cívica e simbólica dos lugares, o programa Polis tentou, no encalço do Prosiurb - Programa de Consolidação do Sistema Urbano Nacional e Apoio à Execução dos PDM, potenciar a dinâmica competitiva das cidades médias portuguesas com operações focalizadas no aspecto urbanístico e ambiental, estratégia que apoiou a musealização e reconversão de algumas zonas industriais. Localmente, o Polis propôs-se recuperar a envolvente às ribeiras e simultaneamente responder ao desafio lançado por Teotónio Pereira de “aplanar a cidade”, que associava funiculares radiais a um conjunto de pontes pedonais, porventura secundarizando a sociabilidade dos lugares centrais.


Fica claro nos artigos deste número monográfico que a fragilidade do tecido urbano requer intervenções de reabilitação técnico-cientificamente ajustadas, sendo tão discutíveis as recentes tentativas neo-tradicionalistas desenvolvidas pela SRU Nova Covilhã na área mais decadente da cidade quanto as empreitadas modernistas desgarradas que marcaram os anos 70 e 80. As intervenções da UBI são apontadas como exemplo de ponderação programática e de qualidade arquitectónica, constatação que justifica a sua inclusão no Inventário da Arquitectura Moderna.

O reconhecido valor patrimonial do conjunto reclama a progressiva aproximação das estratégias de intervenção pública à Carta de Leipzig para o Renascimento das Cidades, de molde a aprofundar a cultura urbana baseada na criatividade e na encomeda pública não discricionária, capaz de aumentar a participação cívica e o interesse dos cidadãos pela transformação destas áreas. Aliadas à arquitectura contemporânea de qualidade, tais práticas terão certamente maior efeito multiplicador que as reconstruções insossas ou o espúrio embelezamento. Na medida em que os municípios podem beneficiar dos Fundos de Desenvolvimento Urbano, lançados conjuntamente pela Comissão Europeia e pelo Banco Europeu de Investimento, talvez seja o momento de pensar em operações que conciliem a reconversão das áreas habitacionais e industriais degradadas com a melhoria da coesão e integração social.

A cultura, valor em si mesmo e fonte dos demais valores, tem vindo a ganhar nova importância na vida política e económica europeias e a assumir-se como efectivo motor de desenvolvimento. A Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural (2005), ratificada por Portugal, propõe precisamente que se associe o estudo, a divulgação e o uso do património às práticas criativas contemporâneas. Assim, mais que fátuo deslumbre, contribua esta preciosa publicação para motivar os decisores políticos a assumir compromissos capazes de dotar estas paisagens da memória de algum futuro. (Jornal do Fundão)

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