2011-07-06

Ante os Despojos (Sobre a exposição de Michal Krenz no Museu de Lanifícios da UBI)

Certos resíduos da cidade aparecem agora iluminados pelo talento na mais recente exposição individual de Michal Krenz (http://krenz.pl), patente no Museu de Lanifícios até 4 de Setembro. O autor apresenta pinturas e assemblages que transfiguram a condição dos objectos de todos os dias e fazem da arte uma construção que alarga verdadeiramente as fronteiras do possível.

Destacam-se nesta exposição um conjunto de “morceaux choisis”, voz de Gide, que adquirem sentido e qualidades próprias da metáfora, do deslocamento que os respiga da ruína para a margem improvável da fantasia.
 Fragmentos capazes de, nesta espécie de poética do silêncio, ultrapassarem o plano da função e a cinética do trabalho para se apresentarem como obra inteira. O vigor da intervenção de Krenz resgata essas coisas encontradas de um certo tempo de chumbo - que encontramos em Kiefer, por exemplo - conferindo ao acaso um sentido decorrente da hierarquia estética.

Paralelamente, o conjunto de telas denominadas “estrututuras” aproxima-se do campo convencional da pintura. Lida com alguns dos seus problemas clássicos, como a representação da tridimensionalidade no plano - a perspectiva -, e defronta a imanência dos ritmos próprios da estrutura visual e da matéria. A plasticidade destas telas decorre muito da oposição entre a acentuada regularidade horizontal dos padrões e o ritmo vertical da pincelada, curta e contida mas responsável pela vibrante tessitura e profundidade das superfícies.

Voltemos às peças tridimensionais. É a estas que melhor adere o mote da exposição: Entropia, qual propensão para o desconcerto, contrariada pela tensão entre conceito e forma. As marcas gráficas apostas às coisas interrogam-nos sobre a verosimilhança dos signos, que tanto podem aparecer como simples graffiti, prova da passagem do autor, como evocar o quotidiano lustro da mão.

Este grupo de obras interroga a noção de verdade: a capacidade de forjar uma memória confunde-se com a sua exaltação, ou seja, a reconstituição artística qualifica a experiência do reflexo que se toma por realidade. Há escassa relação formal, material e técnica entre os três grupos de obras, denominados estruturas (pinturas), objectos e ícones. Todavia, a palavra pintada transgride a linguagem. A qualidade do signo, artifício que relaciona o distinto, lembra o “Discours sur le peu de realité” de Breton, justificado pelo contra-ataque e confronto de sentidos provocados pela obra na viagem interior do sujeito.

Não parecendo feita para estimular o prazer de olhar, Krenz evidencia nesta exposição uma poética assente numa espécie de abismo de tempo, de rememoração que impele a sentir a presença da vida neste contexto museológico. Parafraseando o provérbio hassídico, ajuda a encontrar o fogo nas cinzas.

© 2011 Francisco Paiva / Urbi, 06/07

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