1. Um dos principais factores de atractividade económica e de equilíbrio demográfico continua a ser a qualidade do espaço físico habitado e a articulação das diversas funções que as cidades e as regiões modernas devem assegurar. A valorização do território apela cada vez mais à imaginação na utilização dos instrumentos financeiros nacionais e das políticas europeias de coesão ao dispor das organizações que assumem a missão de contribuir para a melhoria da qualidade de vida. Porém, estando o Fundo de Desenvolvimento Urbano no centro da Estratégia 20/20, que tem sido feito a nível local para aproveitar as qualidades e superar as consabidas fragilidades estruturais da Beira Interior neste campo?
Permanece, aliás, uma incógnita o que pensam as forças vivas da sociedade local e como se posicionam as várias instâncias da administração pública sobre as três prioridades estabelecidas nesse ambicioso instrumento de política para os anos de 2014 a 2020 que apoia o desenvolvimento em três pilares: inteligente, sustentável e inclusivo. Adjectivos que têm o denominador comum da “inovação”, advogam uma economia baseada na cultura e no conhecimento (ao contrário da compressão salarial que nos arruína), apelam ao uso sustentável dos recursos e da energia e consideram que o desenvolvimento deve ser um instrumento base de coesão social, de combate ao desemprego, à pobreza e à discriminação.
A par da visão macroscópica, também os países e as regiões devem definir os seus próprios objectivos, à luz do seu “ethos” próprio, dos problemas prioritários e do potencial das suas comunidades. Processo que há muito deveria estar no terreno, estabelecendo laços e capacitando os diversos actores económicos, sociais e culturais para empreenderem em conjunto, considerando o ciclo completo do dinheiro, desde a obtenção de financiamento ao retorno do investimento -- aspecto muito descurado nos anteriores programas comunitários, mas também as diversas externalidades capazes de melhor o potencial crítico de sucesso, como a cultura, a educação e a inclusão.
2. Desenvolver uma região de acordo com os parâmetros enunciados implica, desde logo, reconhecer o contexto, o seu potencial, qualidades e contradições, dinâmicas formais e informais, existentes ou desejáveis, nos aspectos sociais, ecológicos, de mobilidade e de habitação. As opções políticas apenas responderão às necessidades das pessoas mediante a abertura da simples representação a modelos de governança mais participados e envolventes dos cidadãos, tanto nas estruturas formais de poder como nas diversas associações empresariais e cívicas.
O impacto regional de alguns agentes, como a Universidade da Beira Interior, ultrapassa muito a razão dos empregos criados. O seu impacto cultural será ainda mais amplo e difícil de calcular, seja na programação de eventos, seja na alteração de mentalidades que a secularização da ciência normalmente comporta. Apenas a vulgarização do conhecimento permite inovar e colher apoio para iniciativas complexas como, por exemplo, as iniciativas denominadas carbono zero ou as indústrias criativas, centradas nas áreas das engenharias, das artes e do design, capazes de romper com o paradigma industrial produtivista, desajustado da Era digital.
Qualquer estratégia de estímulo à inovação deve, pois, conciliar a tecnologia com o talento. A generalidade das cidades do index de “smart-cities” aposta em ecossistemas de incubação e aceleração de empresas que promovem parceiras de co-criação (cowork), espaços de fabricação (fab-lab) e prototipagem de ideias com potencial de transformação em produtos e serviços. Acolhem inicativas empreendedoras, como os denominados “MadLab” que visam precisamanente estimular negócios e novos empregos (Smartip).
Tudo isto exige dos diversos agentes locais, especialmente das autarquias, uma postura adequada, no sentido de aumentar a confiança das pessoas, através da desburocratização e da transparência dos diversos processos administrativos delas dependentes. Mas nada disto se viabiliza sem um envolvimento da população e sem uma efectiva participação cidadã, que projecte e suporte as decisões, produza e dê sentido aos novos bens e serviços criados.
A conferência internacional Smart Cities for the Sustainable Grouth evidenciou precisamente que o principal factor de sucesso das estratégias centradas na inteligência reside mais na força e dinâmica da rede cívica de parcerias que na estratégia de marketing ou nas tecnologias. Prova que as cidades democráticas continuam a ser mais resilientes e atractivas.
in Jornal do Fundão, nº3438, p.23, 2012-07-05